terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Curvas erradas

Que medo danado que dá pensar, né? Cheguei a essa conclusão numa sexta-feira de manhã, em plena aula de fisiologia médica, ouvindo uma professora japonesa falar sobre pulmão. Jeito mais estranho de se criar teorias. O que mais eu poderia esperar? Sou eu. A eterna estranha. A singular. As vezes até a mais boba por ser a dramática medrosa. A auto-sabotadora E ainda sim, sentada naquela cadeira, com quase 30 pessoas em volta, com um fone em um ouvido, a cabeça do outro lado do continente, o coração pequenininho, quase imperceptivel perdido dentro do corpo, ainda sim, eu me dei conta de que eu era movido não por coisas bonitas. Não por amor, não por coragem. Eu sou movida pelo medo. O medo de ser assim, estranha mesmo, sem nem porquê. Talvez além do limite do estranho legal. O medo de impor idéias. O medo de perder, de ter, de ganhar, de sentir, de ser... O medo de ter medo! Quanto mais eu pensava, mais medo eu tinha. Do rumo que a vida toma sozinha, sem perguntar se pode, se deve, se eu quero. Ela vai indo, vai indo... e parece que faz vinte curvas erradas, entra na rua sem saída, tropeça com uma cerca elétrica, bate de cara num muro alto, acha a saída, e então volta a se perder. Enquanto pensava em tudo isso, enquanto sentia o medo esmagador que insistia em comprimir cada orgão do meu corpo até me tirar o folêgo, pensei em quantas curvas erradas eu entrei até chegar aqui. Pensei em quantas me levaram a uma janela aberta. Foram poucas, confesso. Mas estavam ali! As curvas certas. As janelas e portas abertas. Estavam ali! E se eu souber olhar bem, na próxima rua sem saída talvez haja uma portinha escondida no canto de uma parede, como a toca do coelho de Alice, que pode me levar a um lugar, não mágico, nada disso, mas de descoberta e conhecimento. Quem diria que uma aula de fisiologia médica seria assim, tão terapêutica?
"A tarde estava azul e dessa vez eu fotografei. O que acontecia em mim estava ali, assinado pela natureza. Havia uma luz no fim da tarde que espalhava entre as montanhas, o céu e o mar, como se tudo estivesse renascendo e clareando. O horizonte límpido e uma luz envolvia o todo, era o recomeço interno. O renascer depois de tantos aprendizados sempre faz a alma brilhar mais." (Denise Portes)